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Sete pães para quatro mil

· 4 min de leitura

Cesto de vime com pães e ramos de trigo, em preto e branco, com o título do artigo e o pilar Lucro
Foto de Mae Mu na Unsplash

Existe uma conta no Evangelho de Marcos que sempre me chamou a atenção.

Na primeira multiplicação, havia cinco pães. Cinco mil pessoas comeram, e sobraram doze cestos (Marcos 6). Na segunda, havia sete pães. Quatro mil pessoas comeram, e sobraram sete cestos (Marcos 8).

Com mais pães, alimentou-se menos gente e sobrou menos. O texto não é sobre gestão, e eu não vou forçá-lo a ser. Mas a conta ensina uma coisa que vejo toda semana nas empresas: a quantidade de recurso que entra não decide o tamanho do que sobra.

Vender mais resolve, quando a venda deixa alguma coisa

Quando o dinheiro aperta, a resposta mais comum do dono é uma só: vender mais. E faz sentido. Mais venda dilui o custo fixo e ocupa a estrutura parada. Muita empresa saiu do buraco vendendo. Sem venda, ninguém sai.

O problema é que a venda só ajuda quando cada real vendido deixa margem e vira caixa. Se a margem vaza no desconto, no custo mal calculado ou no prazo, vender mais não tapa o buraco. Cava mais rápido.

Explico com duas contas.

Primeira conta: o desconto que come a margem

Um exemplo, só para mostrar a conta (não é um caso real). Uma empresa fatura R$ 1 milhão por mês. De cada R$ 100 vendidos, R$ 70 vão embora em custo variável (mercadoria, comissão, imposto, frete). Sobram R$ 30 de margem para pagar a estrutura. O custo fixo é de R$ 270 mil.

Para crescer, o dono dá 10% de desconto e vende 20% a mais em volume.

Por mês Antes Depois do desconto
Faturamento + R$ 1.000.000 + R$ 1.080.000
Custo variável - R$ 700.000 - R$ 840.000
Margem de contribuição = R$ 300.000 (30%) = R$ 240.000 (22%)
Custo fixo - R$ 270.000 - R$ 270.000
Resultado = R$ 30.000 = −R$ 30.000
Exemplo ilustrativo: o faturamento sobe de R$ 1.000 mil para R$ 1.080 mil (+8%), a margem cai de 30% para 22% e o resultado vai de +R$ 30 mil para −R$ 30 mil; a ponte mostra +60 mil do volume extra e −120 mil do desconto

O faturamento subiu 8%, a equipe comemorou o recorde, e a empresa passou a perder dinheiro.

A regra por trás da tabela: com 30% de margem, cada 10% de desconto exige 50% a mais de volume só para empatar. Pouca gente faz essa conta antes de dar o desconto.

Segunda conta: o crescimento que prende o caixa

Agora imagine a mesma empresa sem desconto nenhum, com margem saudável. Ela recebe dos clientes em 60 dias e paga os fornecedores em 30.

Cada R$ 100 mil a mais de venda por mês gera R$ 70 mil de custo, que sai do caixa 30 dias antes de o cliente pagar. Resultado: o crescimento prende cerca de R$ 70 mil no caixa, e esse dinheiro fica preso enquanto o novo patamar de venda durar. Se houver estoque, prende mais.

A DRE mostra lucro. O banco mostra cheque especial. Os dois estão certos, e é por isso que tanta empresa quebra crescendo: o lucro existe no papel, mas está parado na mão do cliente.

Três perguntas antes de pedir mais venda

  1. Quanto sobra de cada venda? A margem de contribuição por produto, serviço e cliente, e não a média da empresa. A média esconde o produto que vende muito e paga pouco, e o cliente grande que só compra com desconto.
  2. Quanto do faturamento vira caixa, e quando? O prazo médio de recebimento contra o prazo médio de pagamento. Se você recebe depois de pagar, cada real de crescimento precisa ser financiado.
  3. Onde a margem vaza? Desconto concedido sem conta, devolução, inadimplência, custo que subiu e não chegou ao preço. Cada vazamento desses cresce junto com a venda.

Se as três respostas estiverem boas, venda mais, e venda com vontade. Se não estiverem, lembre-se da velha lei dos buracos: quem está num buraco precisa, antes de tudo, parar de cavar! Arrume o que já entra. Crescer depois sai mais barato.

Faturamento é quantos pães entram. Resultado é quanto sobra nos cestos.

Adeilton RufinoExecutivo e Consultor Financeiro
Bacharel em Ciências Econômicas

Leia também: Fechar o mês é sobre o futuro. Os cinco números que um diretor financeiro olha todo mês.


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Adeilton Rufino de terno azul, com notebook
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